Resenha: Nevando em Bali - Kathryn Bonella




Editora: Nova Geração
Edição:  1ª
Ano: 2016
Páginas: 365
ISBN: 9788581303598
Sinopse:
Nevando em Bali, Best-seller da escritora australiana Kathryn Bonella, é um livro raro e absorvente. Ele traz revelações que vão chocar os leitores interessados em jornalismo investigativo e em histórias humanas por trás dos folhetos que prometem paraísos na Terra.
Jovens do mundo inteiro, entre eles sul – americanos, como o brasileiro Rafael, enriquecem até o delírio na pequena e linda Bali, cujos moradores são famosos por acolher com gentis e hospitaleiros sorrisos milhões de turistas.
No estilo de vida criado por esses novos playboys, o tráfico de cocaína desempenha papel fundamental, nem sempre com final feliz.  Eles poderão acabar na prisão de Kerobokan, onde pagarão um alto preço pela vida de luxo e orgias.
Construído à base de relatos verdadeiros e exclusivos sobre esses traficantes, o livro lança a pergunta:
QUEM SERÁ O PRÓXIMO A ACABAR EM KEROBOKAN, ONDE SOFRERÁ POR LONGO TEMPO À ESPERA DE UM FUZILAMENTO?
/>
Um livro indispensável e arrebatador.


"Olar pessoals."
Sou eu mesma, Amanda Mello!!!
Sentiram minha falta?
Não?
Então tá bom, eu tô de volta mesmo assim, e problematizando até o chão com este livro da jornalista Kathryn Bonella, uma longa reportagem contando a história de jovens que fazem parte da extensa rede de comercialização de drogas e sexo em Bali.


Kathryn entrevista Traficantes, Mulas, Taxistas, Cafetões, etc., todos de alguma forma envolvidos no esquema que oferecia sexo e drogas aos turistas no paraíso praiano de Comer, Rezar, Amar (por algum motivo, a autora tem obsessão em citar esse livro, a fim de fazer um contraponto entre a Bali real e a romantizada).

Com um tom um tanto condescendente, Kathryn narra a forma como o brasileiro Rafael, e tantos outros jovens,  descritos no livro, entre outras formas como “ bem educados”, de família classe média, “com duas irmãs médicas” e ” pinta de galã de Hollywood” começaram a fazer parte do multimilionário mundo do tráfico de cocaína e ecstasy em Bali.

Lembra que eu falei que ia problematizar até o chão?  Já começou.

Logo no início do livro, percebo que existe uma tecla na qual a autora sempre bate, sobre o quanto são educados, bonitos e de boa família os traficantes que compõem a colcha de retalhos de seu livro. Acredito que pareceu muito importante ressaltar isso para que as pessoas realmente se comovessem, e vemos isso o tempo todo.

A título de curiosidade, apenas pense por alguns segundos na diferença da forma como são retratados, no cinema brasileiro, dois traficantes famosos: João Estrella (veja a forma condescendente como a mídia se refere a ele, bem como seu “final feliz” aqui )  e Dadinho (veja o pouco que consegui achar sobre o real Dadinho aqui), ou como nossa mídia noticia de formas diferentes os crimes de “jovens de classe média” e o de “traficantes do morro”. ( Se você tiver memória curta, dá uma olhadinha aqui)

Essa relação é bastante explorada no livro, com a autora a todo tempo nos lembrando de que fala de belos e jovens rapazes que falam inglês e são agradáveis e até cantam e fazem joviais piadinhas, mesmo presos à espera da morte, não de um traficante negro e pobre qualquer, vindo do gueto.

Ela também elege para si um mocinho, Rafael, que consegue sair da vida de crime, e passa a ser agora um tipo de abnegado constrito e arrependido, que só quer surfar e ser uma boa pessoa, como podemos ver no trecho a seguir:

“Meus amigos falam “Agora você é uma pessoa diferente, é o Rafael de verdade *. Antes, era um pouco* do mal. Até seu olhar está diferente agora.”(...) No fim, depois de tanto glamour* não sinto orgulho.Tento esquecer aquela merda.(...) Agora tenho valores diferentes para a vida*. Não quero ter um carro bonito, não quero ter uma corrente de ouro, não quero ficar em hotéis cinco estrelas.(...)”
Vamos brincar de analisar a construção desse texto?

Veja aí, nos pontos que eu destaquei:

O Rafael “de verdade” é uma pessoa boa.
Mas não é que o “outro” Rafael fosse do mal, era só UM POUCO do mal.
Ele tinha uma vida de glamour.
Que ele trocou por novos valores na vida.

Essa romantização do personagem Rafael é bem parecida com a narrativa que vemos para João Estrella na entrevista que citei acima, e não estou criticando a reabilitação de ambos, critico a forma como estes “jovens de classe média” são apresentados, romantizados, aceitos e reinseridos na sociedade, enquanto aos “traficantes de favela” cabe serem ainda mais brutalizados em seus retratos, conforme citado na reportagem da Folha para a qual forneci o link acima.

Grosso modo, não é apenas o jornalismo ruim do dia a dia e suas manchetes parciais que culpabilizam de forma mais brusca o traficante pobre e negro, enquanto o jovem  branco classe média é atenuado e romantizado. Isso ocorre mesmo em filmes aclamados e até em livros que pretendem fazer um sério trabalho jornalístico.

Devo aqui frisar, eu não sou a favor da pena de morte, para crime nenhum, e muito menos para o tráfico, mas é engraçado ver as diferentes formas como a sociedade num todo retrata essas duas realidades distintas, e ouvir pessoas relativizando todo esse preconceito.

O que no leva a...

Bandido bom é bandido morto.

A frase, usada largamente aqui no Brasil e proferida sem receios pela população à ocasião da execução de Marco Archer, outro personagem do livro, também deve ser uma das favoritas lá pela Indonésia, já que a pena capital, um desejo de certa parcela dos brasileiros, é uma realidade por lá.
Fiquei bastante decepcionada pelo livro não levantar muitos dados sobre este assunto, e apenas focar na vida dos traficantes.

Afinal de contas, se as penas para o tráfico são tão duras na Indonésia, por que as pessoas ainda se arriscam a traficar por lá, e por que ainda há tanta droga?

O problema não se restringe à Indonésia. Segundo o  Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, a República do Irã, país que pune com a morte o tráfico de drogas, é o país onde há mais tráfego de ópio no mundo, e o Vietnã, que também emprega a pena, o maior consumidor de “designer drugs” (drogas experimentais sintetizadas, geralmente mais letais). 

Em contrapartida, países que descriminalizaram drogas, têm taxas menos alarmantes.

Portugal, por exemplo,  descriminalizou todas as drogas em 2001. Ao contrário do previsto, a quantidade de usuários teve queda nos últimos 14 anos. Em 2011, por exemplo, o consumo havia caído pela metade.
Atualmente, o país tem cerca de 15 mil pessoas em tratamento para deixar de consumir drogas. Já teve, antes da descriminalização, mais de 100 mil usuários. 
Já o Uruguai, único país no mundo a legalizar o cultivo, a comercialização e distribuição da maconha, conseguiu reduzir a zero o número de mortes ligadas ao uso e ao comércio da droga, segundo o secretário nacional de drogas do país, Julio Heriberto Calzada.

Não se sabe se é o efeito de oferta/demanda, se é pelo puro desejo de transgredir, se é um fenômeno social, econômico, ou psicológico, mas desde a Lei Seca nos EUA, o que se pode notar é que onde há mais repressão, existe grande comercialização, grande procura e uma urgência em encontrar formas mais efetivas de se obter o efeito mais potente da droga, seja numa receita de Bourbon numa destilaria clandestina, ou numa indústria fármaco- química que sintetiza os famosos “doces”, cada vez mais potentes e letais. 

Gostei de conhecer o livro, pois me deu a oportunidade de pensar nesses assuntos, e de colocá- lós em discussão por aqui, mas esperava uma postura mais assertiva, seja em qual direção fosse, sobre esse assunto.

Falta posicionamento em Nevando em Bali, mas o livro serve bem ao propósito de matar a curiosidade sobre os bastidores desses crimes, e suas personagens.

7 comentários:

  1. Oi, amei seu texto sobre esse tema, é um tema que tem que ser discutido. Não conhecia o livro, mas achei ele com uma premissa muito interessante e com certeza vou aderir ''problematizando até o chão'' na minha vida.
    Abraços
    www.aluado.com

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  2. Oi, Amanda!
    Não sou muito chegada em não-ficção, mas esse livro até que me despertou curiosidade por apresentar justamente a visão do mundo dentro do tráfico por parte de pessoas cuja aparência definitivamente nunca denotaria que estivessem ligadas ao meio, mas estão mesmo assim. Interessante esse contraponto que você fez e os links que citou sobre como é tratado um traficante/bandido negro e um branco, realmente a postura da mídia muda demais entre ambos e no fim das contas temos uma reflexão ainda maior do que à princípio se imaginara. Sobre a questão da diminuição versus aumento do tráfico em países legalizados ou não, penso que é mais lucrativo para eles vender em um lugar que não é aceito, pois não há qualquer demanda legal, diferentemente de lugares legalizados, como se, nesses casos, perdesse a graça, por assim dizer, mas, realmente, pode ser algo bem mais complexo também. De qualquer forma, valeu a dica da leitura, que mesmo com seus altos e baixos, parece esclarecer bem sobre os bastidores de quem vive nesse mundo. Chocante e controverso, mas infelizmente real.
    Beijos!

    ♥ Sâmmy ♥
    ♥ SammySacional.blogspot.com.br ♥
    ♥ DandoUmadeEscritora.blogspot.com.br ♥

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  3. Amanda!
    Polemizou mesmo, trazendo vários questionamentos e levantando vários pontos relevantes.
    Infelizmente a sociedade no mundo inteiro vive de aparência e a mídia contribui tanto para levantar como para detratar determinada classe ou pessoa de acordo com sua criação, onde mora, aparência etc...
    Não sou a favor da pena de morte, porém por vezes acredito que nesses países onde ela é aprovada, existe uma logística por trás: vamos dizer que aqui punimos os traficantes com a morte e alimentarmos a imagem de bonzinhos, porém por trás, induzem ao maior consumo e pena...
    “Não confunda jamais conhecimento com sabedoria. Um o ajuda a ganhar a vida; o outro a construir uma vida.” (Sandra Carey)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de MARÇO, livros + KIT DE PAPELARIA e 3 ganhadores, participem!

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  4. Parece ser uma leitura bem profunda e envolvente. Com um tema importantíssimo!
    Curti bastante que o livro retrata certas polêmicas, certos problemas que vivenciamos hoje em dia.
    O livro parece que nos faz pensar e muito sobre certos assuntos.
    Gostei do que conheci aqui e gostaria muito de conhecer a obra mas profundamente.
    Beijos,
    Caroline Garcia

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  5. Oi Amanda!
    Eu já tinha visto esse livro em algum lugar, ,porém não me lembro onde, gostei bastante dessa premissa, parece ser um livro interessante e diferente do que estou acostumada a ver, fiquei bem curiosa para conferir, mas inda não tenho certeza se essa séria uma leitura para mim, já que mexe com uns temas que costumo evitar como drogas.
    Ele livro é realmente muito polêmico e a autora é realmente muito ousada, o que já faz com que desperte em mim um certo sentimento de adoração, mas apesar de tudo não sei se essa é uma leitura para mim.
    Bjs.

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  6. Olá, nossa, bem interessante esse livro..por más que fale que realmente e quase realidade porém dever ser bem relevante esses pontos que você relatou, são bem intrigante....nossa realidade e bem assim, eu acho...todo mundo só vive de aparencia e media, e quase ninguem perceber essa realidade!!

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