Resenha: 100 Crõnicas, de Mário Prata

12 agosto 2015




Ficha Técnica
Edição: 1
Editora: Cartaz Editorial
ISBN: 8585527102
Ano: 1997
Páginas: 232
Sinopse: O livro apresenta 100 das melhores crônicas do autor, publicadas no jornal O Estado de S. Paulo.






Resenha

Olá, meninotes e meninotas.
A resenha de hoje é fruto de alguma inveja e muita ressaca. Literária e, enfim, aquela tradicional.
Inveja porque eu tô vendo todo mundo resenhar o "Uns Brasileiros", e eu queria também. Ressaca literária porque eu tive ressaca com um livro, ela passou, peguei outro livro e ele deu ressaca também. 
E a tradicional porque... oras, eu tenho vida também fora dos livros, fiquem vocês sabendo. Hahahaha.
No fim deu que com tudo isso, tive que apelar para um livro menor, mais fluído, e nada melhor do que umas crônicas pra isso. 
E como estava na vibe do Mário Prata, resolvi reler este livro pra resenhar pra vocês.
É divertido atentar para a forma como o que é aceitável numa crônica muda com o tempo.
Muita coisa politicamente incorreta para os tempos de hoje, o que me deixou meio de cabelo em pé na hora de deixar aqui uma das crônicas do autor para que vocês pudessem ter uma ideia do livro.
Isso porque Mário Prata não é nenhum símbolo do "coxinhismo" então a gente não espera dele um discurso ultra -conservador, ou machista, ou que tenha racismo. Mas eles aparecem, e é estranho pensar que isso era tão normal. 
Algumas das crônicas, da distante década de 90 arrepiariam os cabelos de feministas mais radicais do que eu, ou de defensores de LGBT e dos negros mais bem engajados do que eu. Em vários momentos eu ri, meio com vergonha de mim mesma. Pensando: Eh, Amanda, você ainda não desconstruiu esse tipo de coisa em você?
Ato falho, lapso, sem perdão. Acho que nem o próprio Mário Prata se permite pensar da mesma forma.
Em 20 anos evoluímos. Alguns. Nem todos.
Mas a verdade é que mesmo com uns lapsos e atos falhos, o livro é bastante agradável, e é interessante também enxergar que a situação no país é bastante parecida com a de vinte anos atrás.
Excreto pelos celulares e computadores. E os textos que se referem a eles são impagáveis.
Deixo aqui um dos textos que passou no meu crivo de "politicamente correto alla 2015". Huahuahuau.
O Soluço já foi solucionado?

Você lembra quando São Paulo tinha garoa? Aquela chuvinha fina, que não chovia nem molhava? Nunca me explicaram muito bem porque não temos mais a garoa. São coisas do mundo, que acontecem, e a natureza não explica. A obturação, por exemplo. Sou do tempo que a "obturação caia". Era normal a obturação ( que nome!) cair. Com o avanço da ciência odontológica, hoje isso é raro. Não caem mais nem a garoa nem, a obturação.

E o soluço? Já pensou no soluço? Há quanto tempo você não tem uma crise de soluço? Não sei porque, mas acho que hoje as pessoas não soluçam mais como se soluçava há uns anos atrás. Nem aquele soluço descrito pelo mestre Aurélio como "fenômeno reflexo que consiste numa contração diafragmática involuntária, espasmódica, que produz o início de movimento inspiratório, o qual subitamente é detido pelo fechamento da glote, com a produção de ruído característico", nem mesmo aquele outro tipo de soluço, o "pranto entrecortado por inspiração ruidosa". O que se passa com o soluço? Obturaram o soluço? Faz tempo que não ouço um desagradável e interminável soluço no escurinho do cinema.

Soluçávamos mais, muito mais, antigamente. E para parar um soluço existiam fórmulas "infalíveis". Todo mundo conhecia um método, uma maneira de se acabar com ele. "Tem um jeito que não falha", sempre se adiantava um com para a solução. E a vítima do soluço era levada à malabarismos, a verdadeiros exercícios de aeróbica, à contrações faciais, a auto-tortura. Cada família tinha seu estilo, cada povo sua solução. Lembra?

- Tapar o nariz e a boca e ficar sem respirar o maior tempo possível. A pessoa ia ficando roxa, bochecha inchada, quase explodia e nem sempre o soluço passava.
- Encher bixigas de aniversário, uma atrás da outra, até passar o soluço. Também quase matava o soluçante.
- Beber um copo de água de uma só vez, com o nariz tapado. O coitado sempre engasgava.
- Tomar um copo de água com a cabeça voltada para baixo, mas colocando a borda do copo nos lábios superiores, de ponta-cabeça. Sempre molhada a sala toda e a cabeça do doente. E o soluço ria da cara da gente.
- Assoviar o hino nacional. Inteiro, num balada só.
- Levar um susto. Este era mais complicado porque a pessoa sabia que ia levar um susto de alguém a qualquer momento e ficava preparada. Não relaxava. Você tinha que distrair a vítima e, de repente, outra pessoa surgia e dava um susto no soluçado. Tinha gente que morria do coração e ainda soluçava no caixão.
- Andar de cabeça para baixo, no mínimo dez metros.
E mais milhares e milhares de soluções milagrosas.
Às vezes, o soluço passava. Mas voltava, desafiador, vinte ou trinta minutos depois. Era um tormento, o soluço.
Tinha garoto que inventava que estava com soluço para não comer, por exemplo. Ou até pra não fazer a lição de casa. Geralmente este soluço falso tornava-se real depois, para desespero da criançada. Um castigo. E tinha aqueles casos crônicos em que a pessoa passava o dia a soluçar. Aí os mais entendidos no assunto vaticinavam: se ficar soluçando dois dias, morre! Era terrível.
Naquele tempo, quando estávamos com soluço, pedia-se desculpas para as pessoas mais próximas. Por que? Era feio ter soluço? Soluço era falta de educação? E soluçar ao telefone, então? Até explicar que se estava com soluço para o interlocutor...
Já o outro soluço, o do pranto, podia-se e pode-se combater com mais facilidade. Um alisar de cabelos na amada, um beijo na criança e o soluço passa. "Tertuliano, abraçado ao cadáver, soluçava convulsivamente", escrevia Artur de Azevedo. Ou Inglês de Souza, em Contos Amazonenses: "um deixava naquela saudosa praia a mãe doente e entrevada, arrastada até ali para soluçar a última despedida ao filho que partia para a guerra". Bonito. E se o filho tivesse soluços na guerra? Onde estaria a mãezinha dele para salvá-lo?
Qual seria a solução? E aqui fica a última pergunta: solução é um soluço grande? Daqueles sem solução?
Mário Prata - 100 crônicas

13 comentários:

  1. oie amanda o/
    lendo sua resenha lembrei da antologia que li do gregorio duvivier, lá também tem contos de 2011/2010 que lembram muito os dias atuais, principalmente na parte politica, eu lembro que adorei isso, e ando precisando de livros leves porque também to nesse feito entra e sai da ressaca literária u.u

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  2. Eu curto esses livros que a história é leve e rápida! Mas não curto muito livros de contos, esses sim me deixam de ressaca literária... Eu terminei a minha leitura atual e agora vou continuar lendo um livro de contos, para poder resenhar! Mesmo não gostando, eu estou fazendo um teste de gênero e concluo que esse não é não é minha praia.

    Mas como bom leitor que nunca desiste! Vou até o final. :)
    Ótima resenha.

    Atenciosamente Um baixinho nos Livros.

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  3. Oie,
    Parece ser bem divertido! Não sou muito acostumada a ler crônicas, mas as que já li gostei bastante!! Vou dar uma procuradinha por ele!
    Beijinhos

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  4. Oi Amanda, tudo bem?
    Ressaca literária é péssimo né?
    Não conhecia esse livro ainda e confesso pra você que não me interessei muito por ele, não faz muito meu estilo de leitura.

    Beijos :*
    http://www.livrosesonhos.com/

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  5. Eu assisti a entrevista do Mario no Jô essa semana e super me diverti, fiquei louca de vontade de ler Uns Brasileiros, agora com essa sua resenha já quero ler esse também!

    http://www.livrologias.com/

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  6. Ressaca literária, né?? Quero saber quais foram os livros, viu??
    Contos não faz parte dos meus gêneros preferidos na leitura, mas também não sou de recusar, principalmente quando são contos leves, que falam de coisas do cotidiano ou de nossas vidas, e eu adorei esse, pois reconheci muitos dessas soluções para o soluço (Tapar o nariz e a boca e ficar sem respirar o maior tempo possível kkk).
    Quero procurar esse livro, pois sei que vou gostar.
    Bjs!!

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  7. Oi Amanda, eu não conhecia o livro ainda, mas confesso que fiquei bem curiosa e empolgada com a leitura, eu adoro ler crônicas, irei anotar sua dica!

    Beijos

    http://www.oteoremadaleitura.com/

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  8. Olá!
    Não sou chegada a crônicas, quase nunca as leio, geralmente porque não despertam meu interesse. Então essa é uma dica que vou deixar passar.
    Beijos!

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  9. Amanda, eu não sou muito de ler crônicas, normalmente elas me dão sono.
    Porém tenho curiosidade de ler algo do Mario Prata e gostei da que você selecionou para o post.
    Acho que vou dar uma chance.

    Lisossomos

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  10. Eu estou em ressaca literária no momento, fazia tempo que eu não passava por essa fase e é muito chato.
    Achei bem interessante esse livro, não curto muito contos e essas coisas, e não me interessei por esse livro no momento, mas sua resenha está muito boa.

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  11. Muito legal sua resenha, adorei que você colocou um texto, assim dá pra saber mais sobre o que é o livro e o estilo do autor. Não leio muitas crônicas mas ultimamente tenho aberto mais espaço para o genero na estante.
    Bjs

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  12. Olá! Ressaca literária: ô dó! Agora, amo crônicas exatamente por isso, elas me fazem pensar em certas características da sociedade que, na maioria das vezes são, infelizmente, atemporais!

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  13. Olá!
    O livro não faz meu gênero, mas achei sua resenha bem legal. E encontrei mais uma que curte releituras <3

    Beijos
    http://www.breakingfree.blog.br/

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